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Filmes nacionais: porque eu não gosto deles?

Cansei de responder a amigos, parentes, vizinhos, colegas de trabalho, cachorros, papagaios e coelhinhos:

Não gosto de filmes nacionais porque eles não têm legendas!

Simples assim.

Não vou ao cinema assistir aos maravilhosos, fantásticos, incríveis e premiados filmes brasileiros (segundo pessoas ouvintes, ÓBEVEO) pelo simples fatos de eu não compreender – veja bem, eu disse COMPREENDER – o que falam. Consigo ouvir os sons dos filmes, mas não consigo entender o que falam. Nada mais natural pra quem é surdo.

Mas convenhamos… Tanta tecnologia disponível e os responsáveis não “copiam e colam” as falas dos personagens dentro dos arquivos de vídeo dos filmes.

Infelizmente não me dão o direito de assistir e prestigiar os filmes produzidos no meu próprio país. Enquanto isso, continuo batendo palmas para as produções estrangeiras.


Onde está a #Acessibilidade para #SurdosOralizados nos bancos brasileiros?

Nas duas últimas semanas do mês de Agosto, a Paula Pfeifer, do blog Crônicas da Surdez, e a Lak Lobato, do blog Desculpe, Não Ouvi, lançaram uma discussão acerca da (falsa e falta de) acessibilidade dos serviços para surdos oralizados,  “disponibilizados” pelos bancos e instituições financeiras em geral.

Uma leitora da Lak questionou sobre o problema acontecer em outros segmentos, não só o bancário. Tirei o chapéu pra pronta e simples resposta da Lak:

“Isso é só a ponta do iceberg.”

Iceberg

 

Ainda não tive problemas com bancos, mas com empresas de telefonia… Que atire a primeira pedra quem nunca perdeu cabelo com as operadoras.

Meu chefe já se passou por mim, para poder cancelar um serviço de celular, que eu não estava utilizando. Minha namorada, ouvinte, já ficou ao meu lado no telefone, me passando o que um atendente me pedia, para que eu pudesse alterar um plano de telefonia.

Eu sou surdo oralizado e me sinto lesado pela situação nada desagradável. Então vamos lá! Aqui vai minha contribuição.

Só para início de conversa, fiz uma pesquisa no Google, a qual não durou nem 5 minutos, e encontrei no site da Computerworld o título a seguir. Os destaques em negrito e letras maiores são meus.

A fonte está neste link: http://computerworld.uol.com.br/tecnologia/2011/06/15/bancos-reabrem-os-cofres-para-ti/

Bancos reabrem o cofre para TI

Os serviços de pagamentos e recebimentos da rede bancária brasileira estão entre os mais eficientes e modernos do mundo. Isso porque o investimento em alta tecnologia sempre foi quase que um mantra no setor, para garantir posições privilegiadas em uma arena de forte concorrência.

[…]
O estudo, que envolveu executivos de 62 instituições financeiras que atuam no País, aponta que entre as prioridades de negócios para o ano, na opinião dos executivos, estão, pela ordem, aumento de eficiência, receitas e portfólio. Quando o tema são iniciativas ligadas à inovação, a maioria tem como prioridade a criação de produtos e serviços, novas formas de relacionamento com o cliente e reformulação no atendimento nas agências, além de novos modelos de precificação.

[…]
De acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), em 2010 os gastos do setor com TI atingiram 22 bilhões de reais, crescimento de 15% sobre o ano anterior. As despesas com tecnologia ficaram em 15,4 bilhões de reais, aumento de 13% sobre 2009 e os investimentos na área alcançaram 6,6 bilhões de reais, valor 19% superior.

 

Foram 22 bilhões de reais em investimentos em tecnologia em só no ano passado! Quem se arrisca a chutar quanto desta fatia foi investida para atendimento de pessoas surdas?

Sou formado na área de Gestão de Tecnologia da Informação (TI), possuo certificação em Gerenciamento de Serviços de TI e faço pós-graduação em Gerênca de Projetos de TI. Estamos em pleno 2011, no século 21, porra! Onde está o que os bancos chamam de acessibilidade? Qual é o conceito de acessibilidade dos bancos? A propósito, lanço um desafio:

As pessoas que cuidam da acessibilidade nos bancos são deficientes? Possuem algum tipo de limitação física? Sentem na pele as dificuldades de um surdo, de um cego ou de um cadeirante?

Com essa quantidade de recursos financeiros e tecnologias disponíveis, não aceito mais nenhum tipo de desculpas. Eu não deixo por menos; vou brigar pelos meus direitos.


Minhas impressões sobre o EIA

Este post foi kibado e devidamente autorizado pela Paula Pfeifer, do Crônicas da Surdez.

“Passeei bastante pelos corredores do EIA. O pavilhão de expositores estava lotado destands de todas as marcas de aparelhos auditivos implantes cocleares que existem no Brasil. As fonos ficavam ‘presas’ nas conferências/palestras/apresentações de trabalhos (restrito para elas, não participei) e, nos intervalos, vinham todas para o pavilhão dosstands socializar.

Imaginei que as fonos iriam aos stands para conhecer as novidades tecnológicas e saber dos últimos lançamentos para os seus pacientes, mas confesso que isso me surpreendeu um pouco. Todas as marcas oferecem brindes, como canetas, chaveiros, ecobags, etc. O que notei é que todo mundo estava mais interessado nos brindes do que em qualquer outra coisa. Ok, quem não gosta de um brinde?? No stand da Siemens, onde eu fiquei, observei no máximo umas cinco fonoaudiólogas que estavam interessadíssimas nos produtos e tecnologias. Isso não é uma crítica, é uma constatação – resultado de alguns anos de faculdade de Ciências Sociais, e dos trabalhos de campo de Antropologia e suas rigorosas observações.

Conheci algumas fonos muito apaixonadas pelo que fazem, que contavam com o maior entusiasmo histórias de pacientes que se deram bem com seus aparelhos auditivos. E ouvi muitas outras falando coisas super ‘politicamente incorretas’ e precisei me segurar para não soltar o verbo. Teve uma que, falando sobre uma paciente, soltou a seguinte pérola: “Pobrezinha, tão bonita, dá pena de ver ela ter que se enfeiar com aparelho auditivo“. Sabe quando você fica em três tons de bege?? Pois é.

Fiquei o tempo todo me perguntando porque diabos não existem pessoas com deficiência auditiva trabalhando nessa indústria! É uma indústria feita e direcionada para nós, e é realmente uma tremenda burrice que nenhum deficiente auditivo (usuário de AASI e IC) faça parte dela. Tudo é feito, administrado, pensado, elaborado e criado por pessoas…que ouvem!!! Não tem cabimento. As empresas e marcas deveriam contratar pessoas que NÃO OUVEM para trabalhar com elas, para dar feedback sobre serviços e produtos, para explicar para seus funcionários e fonos como é o mundo das pessoas que vivem sem som.

Falta esse FATOR HUMANO na indústria dos aparelhos auditivos e implantes cocleares – e também na área de saúde, vulgo otorrinolaringologia e fonoaudiologia. Não somos meros consumidores, somos pessoas, temos cérebros, somos bem sucedidos no que fazemos. Não faz sentido que tudo isso seja ‘dominado’ exclusivamente por pessoas que ouvem. Aliás, se alguém souber de alguma marca/empresa que tenha algum consultor ou executivo com deficiência auditiva, por favor, trate de me contar, pois desconheço a existência disso. Falta também o fatorPAIXÃO. Observei muitas pessoas totalmente desanimadas com o fato de estarem ali. E isso me fez perceber o quanto a indústria como um todo perde por não ter a colaboração de talentos humanos que não ouvem e que são apaixonados por este tema, pois vivem e convivem com ele. Não vale a reflexão??

Procurei por pessoas lá dentro que também usassem aparelho auditivo. Não encontrei. Observei as orelhas de todos os funcionários dos stands de todas as marcas e também não encontrei ninguém que usasse AASI. Não vi ninguém com implante coclear. Procurei nos stands algum indício de que as marcas estivessem interessadas no lado humano da surdez e também não encontrei nada que me fizesse acreditar nisso – nenhuma menção a sites, blogs, pessoas com deficiência auditiva, apenas menção a produtos. Acho que eu era a única pessoa lá dentro comdeficiência auditiva. Raciocinem comigo, não é estranho?? É claro que os profissionais são mais do que aptos a conversar e trocar idéias sobre os aparelhos e seus benefícios, mas não seria enriquecedor para eles mesmos (fonoaudiólogos e pessoal das marcas que vendem AASI e IC) trocar idéias e conversar com as pessoas que efetivamente usam esses produtos na vida real?? Não consigo parar de pensar nisso. Sinto como se fôssemos qualificados apenas para assinar um cheque e comprar os produtos, aos olhos das pessoas que os vendem. Ah, se elas soubessem…

Por fim, vi muitos livros interessantíssimos (vou postar sobre eles já já) e CD’s de treinamento auditivo. Procurei por todos nos sites das livrarias virtuais que conheço, mas não estão disponíveis. Imagino que seja preciso adquiri-los diretamente com as editoras. Além disso, não encontrei nenhuma grande novidade em termos de aparelhos auditivos – sei que estou devendo informações para vocês sobre o aparelho à prova d’água que permite até mesmo ouvir música debaixo d’água que a Siemens lançou em Chicago no mês passado, mas ele precisa passar pelos trâmites burocráticos brasileiros (leia-se Anvisa e afins) antes de ser lançado aqui, o que deve acontecer em alguns meses.

Gostaria de agradecer à Siemens por duas coisas: pelo convite (pude me ‘infiltrar’ nesse universo e elucidar várias dúvidas que sempre me acompanharam) e por se preocupar com esse fator humano da surdez sobre o qual eu tanto falo. Afinal, se não se preocupasse, eu não estaria lá dentro divulgando com tanta liberdade este blog sobre deficiência auditiva. E meu enorme muito obrigada também às fonos que foram falar comigo e me contar que conhecem o Crônicas e o indicam sempre para os seus pacientes e familiares.

PS: esqueci um ponto importante. Participei da cerimônia de abertura do EIA. Não havia tradução simultânea para LIBRAS (apesar dos aparelhos de som de ultima geração e do telão) e muito menos closed caption no telão. Acessibilidade, pra quem?”

——

Nota do (UAAAAU! Me senti o máximo agora…) blogueiro:

(Essa, quem me avisou foi a @LakL)

Ontem, o programa  A Liga, da Band, mostrou uma reportagem espetacular sobre deficientes físicos. Mostraram cadeirantes, cegos, portadores de Down e…. e… bem… não mostraram nenhum representante da “categoria surdos”. Sabe o que mais? Sequer colocaram legendas ou um intérprete de LIBRAS no programa que falava sobre (tchan! tchan! tchan!acessibilidade. #EPICFAIL

Acompanhei, no Twitter, trocentas mil pessoas dizendo que amaram o programa, se emocionaram, se mostraram surpresas e estupefatas com a disposição dos deficientes em passar por cima dos obstáculos diários, sejam pessoais ou profissionais.

Pois bem, eu chamo isso de “meu dia-a-dia”. Think about this, e tenha um pouquinho mais de respeito por nós, se não for pedir muito.