Arquivo do mês: abril 2011

Minhas impressões sobre o EIA

Este post foi kibado e devidamente autorizado pela Paula Pfeifer, do Crônicas da Surdez.

“Passeei bastante pelos corredores do EIA. O pavilhão de expositores estava lotado destands de todas as marcas de aparelhos auditivos implantes cocleares que existem no Brasil. As fonos ficavam ‘presas’ nas conferências/palestras/apresentações de trabalhos (restrito para elas, não participei) e, nos intervalos, vinham todas para o pavilhão dosstands socializar.

Imaginei que as fonos iriam aos stands para conhecer as novidades tecnológicas e saber dos últimos lançamentos para os seus pacientes, mas confesso que isso me surpreendeu um pouco. Todas as marcas oferecem brindes, como canetas, chaveiros, ecobags, etc. O que notei é que todo mundo estava mais interessado nos brindes do que em qualquer outra coisa. Ok, quem não gosta de um brinde?? No stand da Siemens, onde eu fiquei, observei no máximo umas cinco fonoaudiólogas que estavam interessadíssimas nos produtos e tecnologias. Isso não é uma crítica, é uma constatação – resultado de alguns anos de faculdade de Ciências Sociais, e dos trabalhos de campo de Antropologia e suas rigorosas observações.

Conheci algumas fonos muito apaixonadas pelo que fazem, que contavam com o maior entusiasmo histórias de pacientes que se deram bem com seus aparelhos auditivos. E ouvi muitas outras falando coisas super ‘politicamente incorretas’ e precisei me segurar para não soltar o verbo. Teve uma que, falando sobre uma paciente, soltou a seguinte pérola: “Pobrezinha, tão bonita, dá pena de ver ela ter que se enfeiar com aparelho auditivo“. Sabe quando você fica em três tons de bege?? Pois é.

Fiquei o tempo todo me perguntando porque diabos não existem pessoas com deficiência auditiva trabalhando nessa indústria! É uma indústria feita e direcionada para nós, e é realmente uma tremenda burrice que nenhum deficiente auditivo (usuário de AASI e IC) faça parte dela. Tudo é feito, administrado, pensado, elaborado e criado por pessoas…que ouvem!!! Não tem cabimento. As empresas e marcas deveriam contratar pessoas que NÃO OUVEM para trabalhar com elas, para dar feedback sobre serviços e produtos, para explicar para seus funcionários e fonos como é o mundo das pessoas que vivem sem som.

Falta esse FATOR HUMANO na indústria dos aparelhos auditivos e implantes cocleares – e também na área de saúde, vulgo otorrinolaringologia e fonoaudiologia. Não somos meros consumidores, somos pessoas, temos cérebros, somos bem sucedidos no que fazemos. Não faz sentido que tudo isso seja ‘dominado’ exclusivamente por pessoas que ouvem. Aliás, se alguém souber de alguma marca/empresa que tenha algum consultor ou executivo com deficiência auditiva, por favor, trate de me contar, pois desconheço a existência disso. Falta também o fatorPAIXÃO. Observei muitas pessoas totalmente desanimadas com o fato de estarem ali. E isso me fez perceber o quanto a indústria como um todo perde por não ter a colaboração de talentos humanos que não ouvem e que são apaixonados por este tema, pois vivem e convivem com ele. Não vale a reflexão??

Procurei por pessoas lá dentro que também usassem aparelho auditivo. Não encontrei. Observei as orelhas de todos os funcionários dos stands de todas as marcas e também não encontrei ninguém que usasse AASI. Não vi ninguém com implante coclear. Procurei nos stands algum indício de que as marcas estivessem interessadas no lado humano da surdez e também não encontrei nada que me fizesse acreditar nisso – nenhuma menção a sites, blogs, pessoas com deficiência auditiva, apenas menção a produtos. Acho que eu era a única pessoa lá dentro comdeficiência auditiva. Raciocinem comigo, não é estranho?? É claro que os profissionais são mais do que aptos a conversar e trocar idéias sobre os aparelhos e seus benefícios, mas não seria enriquecedor para eles mesmos (fonoaudiólogos e pessoal das marcas que vendem AASI e IC) trocar idéias e conversar com as pessoas que efetivamente usam esses produtos na vida real?? Não consigo parar de pensar nisso. Sinto como se fôssemos qualificados apenas para assinar um cheque e comprar os produtos, aos olhos das pessoas que os vendem. Ah, se elas soubessem…

Por fim, vi muitos livros interessantíssimos (vou postar sobre eles já já) e CD’s de treinamento auditivo. Procurei por todos nos sites das livrarias virtuais que conheço, mas não estão disponíveis. Imagino que seja preciso adquiri-los diretamente com as editoras. Além disso, não encontrei nenhuma grande novidade em termos de aparelhos auditivos – sei que estou devendo informações para vocês sobre o aparelho à prova d’água que permite até mesmo ouvir música debaixo d’água que a Siemens lançou em Chicago no mês passado, mas ele precisa passar pelos trâmites burocráticos brasileiros (leia-se Anvisa e afins) antes de ser lançado aqui, o que deve acontecer em alguns meses.

Gostaria de agradecer à Siemens por duas coisas: pelo convite (pude me ‘infiltrar’ nesse universo e elucidar várias dúvidas que sempre me acompanharam) e por se preocupar com esse fator humano da surdez sobre o qual eu tanto falo. Afinal, se não se preocupasse, eu não estaria lá dentro divulgando com tanta liberdade este blog sobre deficiência auditiva. E meu enorme muito obrigada também às fonos que foram falar comigo e me contar que conhecem o Crônicas e o indicam sempre para os seus pacientes e familiares.

PS: esqueci um ponto importante. Participei da cerimônia de abertura do EIA. Não havia tradução simultânea para LIBRAS (apesar dos aparelhos de som de ultima geração e do telão) e muito menos closed caption no telão. Acessibilidade, pra quem?”

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Nota do (UAAAAU! Me senti o máximo agora…) blogueiro:

(Essa, quem me avisou foi a @LakL)

Ontem, o programa  A Liga, da Band, mostrou uma reportagem espetacular sobre deficientes físicos. Mostraram cadeirantes, cegos, portadores de Down e…. e… bem… não mostraram nenhum representante da “categoria surdos”. Sabe o que mais? Sequer colocaram legendas ou um intérprete de LIBRAS no programa que falava sobre (tchan! tchan! tchan!acessibilidade. #EPICFAIL

Acompanhei, no Twitter, trocentas mil pessoas dizendo que amaram o programa, se emocionaram, se mostraram surpresas e estupefatas com a disposição dos deficientes em passar por cima dos obstáculos diários, sejam pessoais ou profissionais.

Pois bem, eu chamo isso de “meu dia-a-dia”. Think about this, e tenha um pouquinho mais de respeito por nós, se não for pedir muito.


Passeio a Ribeirão Preto

No dia 26/03 último, além de outros presentes, ganhei uma carta da minha gatinha. Nela havia a programação de uma viagem de avião até Ribeirão Preto, em São Paulo. Sexta-feira passada pude usufruir o meu presente de aniversário programado.

Sou um cara apaixonado por aviões. Fico vislumbrado ao ver aquelas estruturas voadoras levantando vôo ou pousando numa pista de aeroporto internacional, num aeroclube ou até mesmo em um porta-aviões. Por esta razão, já é a segunda vez que ganho esse tipo de presente da Carol (a primeira foi pra Curitiba).

Não importa o destino. Pra mim, o que importa é a decolagem, o “barulhão” das turbinas, o impulso que o avião toma na pista e nos primeiros segundos de vôo, o trajeto em si, o pouso e a frenagem do avião depois que toca o solo novamente. Pra mim, são momentos mágicos. As imagens vistas lá de cima nunca são rotineiras, mesmo para quem está acostumado a pegar vôo como quem pega um táxi:

A parte xarope é ter que ficar perguntando pra Carol o tempo todo:

“O que foi que o piloto disse?”

Seria legal se colocassem monitores de TV ao longo do corredor, com uma pessoa traduzindo o que o piloto fala pra Libras e ainda ter umas legendas, para aqueles que não sabem a linguagem de sinais (EU!). E ainda arrisco uma pergunta: quantos comissários ou comissárias de bordo sabem Libras?

Buenas, Ribeirão Preto é considerada a capital brasileira do chopp. Dizem que lá é servido o melhor chopp do Brasil. Se é o melhor do país, eu não sei, só sei que é o melhor que já tomei. Estupidamente geladaço (parece que quem quebra essa regra lá, é enforcado em praça pública. =P) e servido ao gosto do freguês (com ou sem colarinho, claro com espuma escura, escuro com espuma clara e até – calúnia! – chopp careca, aquele servido sem espuma).

A cidade não é necessariamente uma cidade turística, mas é muito bem desenvolvida e oferece uma ótima infraestrutura, típica de cidades ricas do interior paulista. Tem bons restaurantes, shoppings gigantes, boa rede hoteleira e uma infinidade de clínicas… Sim, clínicas! Clínica de diagnósticos, de ortopedia, de fisioterapia, de ortodontia, clínica disso e clínica daquilo! Nunca vi tanta clínica numa cidade só! Não tive vontade de perguntar o porquê disso. Aparentemente a cidade está muito bem servida na área de saúde.

Uma coisa que me chamou muito a atenção durante os dois dias que passei lá:

Fazendo uma conta superficial, acho que 90% das ruas de Ribeirão Preto têm estas rampas! Não me lembro ter passado por uma esquina que não tivesse uma. Fiquei impressionado com isso e achei muito legal.

Enfim, curtimos a cidade. Se tivéssemos de morar lá um dia, iríamos de boa. Se quiser saber mais, me pergunta!

Coisas que aprendi em Ribeirão Preto:

  • Nunca vi tanto caqui, goiaba e pêra sendo vendidas nas esquinas do Centro da cidade;
  • Não peça pão cacetinho numa padaria. Ninguém se ofende, mas rola uma risadinha: “É gaúcho!”;
  • O preço de uma corrida de táxi é de doer a alma;
  • Existe emprego garantido pra quem faz salgadinhos de festa (risólis, pastéis, “crocretes”, etc…);
  • AMO as mulheres do Sul;
  • A maioria das placas dos carros é de São Paulo. Sinistro isso.